Revisualizando: The Graduate e a confusão de ser adulto

The Graduate pode ser visto sob uma multitude de diferentes perspectivas. As temáticas que o filme aborda vão do amor à traição, passando pelo sexo, por expectativas familiares e sociais, choques geracionais ou até o mundo plástico do qual fazemos parte. No entanto, o meu maior interesse é abordar o que faz com a sua função de coming of age

A história do jovem adulto que acaba os seus estudos, não sabe o que fazer da sua vida e ainda marca pontos com uma mulher casada com idade para ser sua mãe é algo que pode não ser dramaticamente disruptivo nos dias de hoje, mas não é difícil de imaginar como isto terá sido recebido há 57 anos, em 1967. A forma como o filme balança o humor com certas situações dramáticas é inteligente e capaz de chocar espetadores que procurem personagens moralmente perfeitas. Todas as personagens deste filme, incluindo Benjamin (Dustin Hoffman), a personagem principal – ou principalmente, esta! – têm atitudes desprezíveis. No entanto, Mike Nichols, o realizador, consegue sempre convencer-nos que devemos estar do seu lado. Afinal, é só apenas mais um jovem adulto confuso à procura do seu lugar neste mundo. Desafio que todos já enfrentámos ou iremos ter que enfrentar nas nossas vidas. 

A determinada altura do filme percebemos que as coisas estão a ficar sérias. Se Benjamin sempre pareceu alienado de tudo o que se passa à sua volta, sempre procurando encontrar-se, sem saber muito bem por onde seguir, a verdade é que ganha uma auto-confiança extra quando se integra pela primeira vez no mundo dos “mais crescidos” – embora pelos motivos errados. Cedendo aos avanços da Srª Robinson (Anne Bancroft), Benjamin provavelmente pensa que já joga nessa liga, mas não é verdade. Daí a um tempo percebe que aquela brincadeira poderá ter consequências danosas para todos e percebe também que é um jovem adulto que quer continuar a ser um jovem adulto, procurando o seu lugar no meio de outros jovens adultos. Apaixona-se por quem sempre era suposto se ter apaixonado, só que agora as coisas talvez já não sejam tão fáceis. Sem saber o que fazer, o faz o que sempre fez: atira-se de cabeça. Espeta-se no meio do chão, mas levanta-se. Volta a atirar-se de cabeça, mas agora com a certeza de que é aquilo que quer e que aquele é o único caminho a seguir. A cena final é excelente. Conseguindo o que queriam e desejavam, Benjamin e Elaine (Katharine Ross) percebem que agora as coisas vão ficar sérias. A sua expressão de rebeldia jovem vai-se alterando para assumir a seriedade da vida adulta que os dois escolheram abraçar sozinhos. Os medos e as incertezas vão sempre estar presentes, mas há uma certa inocência que aqui termina para dar lugar a um superior peso de responsabilidade. 

Do ponto de vista técnico, tudo é feito com propósito, com uma perícia e paciência pouco próprias de comédias coming of age. Nichols opta por vários ângulos imaginativos, dizendo-nos muito com isso. Quando opta pelo seu vários close-ups ele quer-nos colocar na confusa cabeça da personagem principal. Quando opta pelo blocking ele quer-nos dizer que estamos a observar algo que não deviamos, somos meros espectadores num espaço muito pessoal e intímo. E depois há ainda toda aquela assombrosa e tão bem enquadrada banda-sonora. Melódica e, ao mesmo tempo, nostálgica, com muito sentimento e muito para dizer, como sempre é esta fase da vida de todos nós.

The Graduate é um filme essencial. Perfeito a expor a confusão, as dúvidas e incertezas que vão na cabeça de um jovem adulto que acaba os seus estudos e percebe que agora tem que traçar o seu caminho, com todas as pressões sociais e familiares associadas. Pelo caminho, este jovem magoa e tenta afastar quem, afinal, ama. Pelo caminho, percebe que nem todo o mundo o ajudará. Ainda assim, também é no caminho que percebe que tem que tomar riscos, seguir os seus sonhos, lutar pelo que mais deseja e aprender que o seu novo eu será sempre diferente daquele que terá que ficar para trás. Mesmo com medo.

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