The Last Duel, o filme de Jodie Comer

Depois de Good Will Hunting, Matt Damon e Ben Affleck repetem parceria e trazem Nicole Holofcener para a adaptação da história que nos é contada em The Last Duel, o filme que, provavelmente, nunca mais irei ver na vida.

Calma, não se assustem, o filme não foi mau, muito pelo contrário, Damon e Affleck acertaram mais uma vez e Nicole Holofcener foi uma mais-valia. A verdade é que não tenho estômago nem um sistema nervoso programado para ver mais do que uma vez este tipo de filmes. Saí do cinema com uma energia tão negativa e com sangue nos olhos que, por momentos, parecia que eu é que tinha acabado de sair do duelo. Por isso mesmo, deixo já um aviso para os mais sensíveis: este filme vai embrulhar-vos o estômago! Realizado por Ridley Scott, The Last Duel conta com Adam Driver, Matt Damon, Ben Affleck e Jodie Comer – a estrela, alma e o coração deste drama histórico.

Baseada em factos reais durante o século XIV, em França, a trama é ditada por um acontecimento que é contado sobre a perspetiva dos três protagonistas, Jean de Carrouges – Matt Damon -, Jacques Le Gris – Adam Driver – e Marguerite de Thibouville – Jodie Comer. Apesar dos três atos narrarem o mesmo acontecimento eles não são de todo repetitivos, afinal de contas estamos a vê-los segundo a verdade de cada um dos protagonistas e, essas verdades, meus caros, não poderiam ser mais distintas. É óbvio que cada um vai ver-se como o herói da sua própria história, mesmo que para Carrouges e Le Gris isso não tenha resultado comigo, aliás, a repulsa que sentia sempre que os via só foi aumentando.

Jean de Carrouges é um aristocrata e valente soldado da coroa que, devido a crise financeira da altura e ao facto de não ter nenhum herdeiro, decide casar-se, pelo seu dote, com Marguerite de Thibouville mesmo ela sendo filha de um antigo traidor do reino. Carrouges tem uma personalidade forte, um orgulho e uma rebeldia que ao longo do filme o vão afastando cada vez mais da corte e, consequentemente, do seu amigo e companheiro de luta Jacques Le Gris. Este último, não vive tanto para lutar quanto aquele que, mais tarde, será o seu rival – Carrouges. Le Gris é um fanfarrão que, graças a sua inteligência, acaba por se aproximar do primo do rei, o conde Pierre d’Alençon – Ben Affleck – que o passa a ter como seu braço direito e acaba por lhe dar umas terras que tinham sido prometidas à Carrouges pelo pai da sua noiva como parte do dote, fazendo com que a relação dos dois fique estremecida. Um ano depois, os dois reencontram-se e tentam selar a paz. Neste encontro, Le Gris finalmente conhece a nova esposa do “amigo” e fica encantado com a sua beleza, e é aqui que começa o início do fim. Carrouges parte para mais um combate – o homem só sabe lutar – e quando regressa Marguerite conta que foi violada por Le Gris. Somos apresentados por duas versões dessa violação. A primeira deixou-me com asco e a segunda, a segunda deixou-me com lágrimas a escorrer pela cara, ranho a sair do nariz e os punhos cerrados de ódio. Mas fiquem descansados porque o ódio nas cenas seguintes só cresce, não fosse isto um filme de época e as mulheres vistas como nada.

A Marguerite de Jodie Comer merece ser vista, compreendida, abraçada, aplaudida e respeitada. Marguerite deixa de ser propriedade do pai que dá a sua mão em casamento e passa a ser de Carrouges, seu marido. A sua única função é parir e nem isso ela parece conseguir fazer. Indo contra o pensamento da época, a heroína não se cala, ela denuncia o crime que sofreu, quer dizer, o crime que foi feito “contra a propriedade do seu marido”. A história de Marguerite pode ter acontecido nos finais do século XIV, contudo o paralelismo com a nossa atualidade é quase palpável. Os duelos já não existem, mas as mulheres continuam a ser prisioneiras desta sociedade estruturalmente machista onde a vítima continua a ser vista como culpada e o silêncio, por vezes, parece melhor do que enfrentar um tribunal (comandado por homens).

Com uma crítica potente ao passado e ao presente (#metoo), The Last Duel é uma obra de Damon, Affleck, Nicole Holofcener e Ridley Scott que, por ser pautada por várias versões da mesma história poderia ser aborrecida, mas surpreende. As suas cenas de luta inquietam, A Cena da violação é uma obra de arte – por mais que seja visceral –  e o último duelo, esse é tão intenso quanto um jogo de futebol onde a vitória é decida nos penáltis.

 


The Last Duel
O Último Duelo

ANO: 2021

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 2h 32min

REALIZAÇÃO: Ridley Scott

ELENCO: Matt Damon, Jodie Comer, Adam Driver, Ben Affleck

+INFO: IMDb

The Last Duel

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