The Forever Purge começa bem, mas não foge dos problemas de sempre

Cinco filmes e uma série televisiva dizem-nos que The Purge é um inesperado sucesso, que é bem mais crítica social do que acção e é bem mais acção do que terror, mas que, no entanto, contém todos estes elementos. A minha opinião sobre a saga é a de que a premissa até pode parecer pouco realista, mas que existe um potencial ainda maior do que o que até agora foi explorado. E mais uma vez, este The Forever Purge volta a não fugir muito a isso.

O filme começa bastante bem. A premissa nasce de uma das perguntas mais vezes feitas quando nos interrogamos sobre o conceito de “dia da purga”: e se as pessoas não parassem ao toque da sirene e percebessem que é após essa conclusão que a sociedade está mais exposta? É um grande ponto de partida para algo que dava para múltiplas possibilidades e que até começa bem com a revolta a ser explorada, não só contra os imigrantes, mas também contra quem tem mais poder, chegando ao ponto de tirar rapidamente de cena quem menos esperávamos.

As atuações deste primeiro ato também funcionam bem e temos direito a tudo: aos habituais imigrantes e seus dilemas quanto à famosa noite e quanto aos EUA; os habituais racistas que entendem o dia como “caça a tudo o que é diferente”; e temos ainda alguns personagens em zonas cinzentas, que, talvez, até tenham mais a ver com os racistas puro e duros do que eles pensam que têm. Sim, alguma unidimensionalidade na maioria das personagens, mas é “The Purge”, é suposto ser tenso e entreter com doses de ação, terror e sangue em igual medida, sem pensarmos demasiado sobre a complexidade das suas personagens.

A meio do filme (sem spoilar em demasia), todo o país está em chamas e rapidamente se percebe que as posições de EUA e México irão dar uma volta de 180 graus e que os que estão em busca de asilo agora serão outros. Mais uma vez, é um interessante conceito e interessantes mensagens – como as passadas na televisão pelo governo mexicano – são-nos transmitidas, enquanto algumas personagens lutam contra as suas próprias convicções, questionando muito do seu mundo e de como vêem quem os rodeia.

Tudo isto até estava a resultar bem até o filme se transformar em mais do mesmo. A batalha pela sobrevivência torna-se previsível e até confusa em certos momentos – muito devido ao habitual estilo caótico de filmagem da saga, que já parece cansado – com momentos e expressões que parecem recicladas do que já vimos antes, seja nos filmes prévios ou na série televisiva. A verdade é que o último ato é aborrecido, cansativo, fazendo-nos importar pouco com a sua conclusão ou com o que daí poderá vir. Havia potencial para explorar muitas outras realidades: ver mais do interior do NFFA e as suas reações ao que se passa; como outros líderes internacionais reagem aos acontecimentos ou o impacto que isso poderá ter nos trabalhos corporativos, quando as pessoas regressam aos escritórios na manhã seguinte e percebem que estão no meio da purga! Tudo isto poderia ter sido explorado, mas o filme prefere manter-se em território conhecido e seguro, arrastando-se até à sua conclusão final. A nível técnico também há pouco que aqui sobressaia. Um cenário diferente, mais seco, com mais luz (sim, aqui há, obviamente, muito mais ação de dia!) e quente do que em anteriores capítulos, mas pouco explorado para nos trazer algo que realmente cheire a novo.

Em suma, The Forever Purge é um capítulo que parte de uma excelente ideia de base, tem outras novas ideias bem trabalhadas e até ao final da sua primeira metade resulta bastante bem. A partir daí, torna-se repetitivo e chato, não se destacando sequer de alguns episódios da série televisiva.


The Forever Purge
A Purga: Adeus América

ANO: 2021

PAÍS: EUA; México; França

DURAÇÃO: 103 minutos

REALIZAÇÃO: Everardo Gout

ELENCO: Ana de la Reguera; Tenoch Huerta; Josh Lucas; WIll Patton; Sammi Rotibi

+INFO: IMDb

The Forever Purge

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