The Whale e a auto-destruição como modo de vida

Durante largos meses o único material promocional de The Whale passava por uma fotografia de Brendan Fraser, visivelmente avantajado, sentado no sofá a olhar para o vazio. Numa época em que os estúdios optam por disponibilizar posters e trailers de forma incansável, a decisão da A24 não foi obra do acaso. A verdade é que The Whale é um filme dificílimo de promover. Há vários riscos associados às temáticas tratadas e existiam ainda maiores riscos de que o material fosse massacrado socialmente ainda antes que o público pudesse perceber tudo o que a obra tem para dizer e o seu contexto.

Comecemos por Brendan Fraser. Muito tem sido dito acerca do seu regresso às grandes produções. Um regresso que acontece num papel bem mais sério do que aqueles que o notabilizaram e com um incrível trabalho prostético a transformá-lo nesta personagem. O filme gira todo à sua volta e Fraser merece mesmo todos os elogios que tem recebido. A sua personagem, Charlie, é alguém que sofre de obesidade mórbida e que parece estar mesmo às portas do pior destino possível, sendo quase inevitável a sua morte à medida que a sua condição física se vai deteriorando. Nestes últimos dias, Charlie vai pensando no que foi a sua vida, nos seus arrependimentos e no que ainda pode fazer com ela. É alguém que quer deixar para trás rancores e azedumes. Pode e tenta reaproximar-se da sua filha, Ellie (Sadie Sink), com a qual praticamente não conviveu depois de ter deixado a sua mãe, Mary (Samantha Morton), para passar a viver uma relação com um homem. Homem esse que também já faleceu, tendo escolhido esse destino para si bem cedo. Charlie culpa-se assim de muito do que foi acontecendo a estas pessoas fundamentais na sua vida e muito do estado a que chegou pode ser explicado por um sentimento de culpa refletido num processo de auto-destruição próprio de quem sente não merecer muito melhor desta vida. Charlie é uma personagem complexa e, mesmo que o texto nem sempre ajude, Fraser dá-lhe toda a humanidade possível, sendo impossível não sentir compaixão por alguém que, talvez tarde demais, tenha descoberto que há sempre algo pelo qual vale a pena viver e que a salvação de cada um depende essencialmente de de nós próprios.

Sadie Sink não é a força da natureza que eu esperava. Não é porque Ellie pouco passa de uma irritante adolescente rebelde, revoltada que a todos odeia. É uma personagem mal construída, o guião dá-lhe muito pouco para além da unidimensionalidade referida e a atriz nunca consegue transmitir emocionalmente o que se pretende que nos faça sentir. Também Ty Simpkins pouco consegue fazer de Thomas, um jovem crente que, aparentemente por mero acaso, começa-se a aproximar da casa e da família. Para piorar, há uma cena exclusivamente entre ambos que me fez questionar o porquê de a estar a ver, uma vez que o filme não é sobre estas personagens, revelando-se mais tarde não ser mais do que um dispositivo narrativo para nos levar ao passo seguinte. Felizmente, há Hong Chau no papel de Liz. Liz é quem cuida de Charlie, a sua companhia, a sua mais fiel amiga, confidente, a que melhor o conhece, aquela que quer o seu melhor e que se frustra quando ele parece remar em sentido contrário. É uma outra personagem complexa, longe de ser politicamente correta e Chau retira o melhor dela com vários dos momentos emotivamente melhor construídos desta história. 

Gastei tanto tempo com as personagens porque elas são, de facto, o mais importante de The Whale, um filme que praticamente se passa numa divisão da casa de Charlie. Parece uma peça de teatro e é mesmo isso que originalmente o foi – com escrita de Samuel D. Hunter – e Darren Aronofsky parece pouco importado em retirar-lhe essa origem, a não ser quando procura fazer algo diferente na estranha e divisiva cena final. Divisivo é algo que o realizador norte-americano está a habituado a ser e aqui não é exceção. Embora seja perceptível onde o mesmo quer chegar e que mensagens positivas pretende transmitir, algumas das suas opções cinematográficas são questionáveis. Falo, por exemplo, de uma cena em que Charlie se levanta e tudo estremece a cada uma das suas passadas como se estivéssemos a ver um monstro. Falo também de como o diálogo o torna obcecado com a percepção de ser visto como “nojento” pelos outros. Percebo porque o faz, acredito, no entanto, que não o faz do modo mais natural. Falo da própria construção de Ellie, sem qualquer pingo de subtileza. Sim, subtileza é algo que se exigia a uma obra do género e que, neste contexto, nem sempre é aplicada tão bem quanto deveria ter sido. 

The Whale não é um filme fácil. É uma obra que nos pede para pensarmos nas nossas escolhas, no que somos para nós e para os outros e no que queremos ser daqui para a frente. A sensação de claustrofobia é inquietante, mas considero isso um mérito. Aronofsky nunca quis que isto fosse confortável e as opções de imagem – em formato 4:3 – e de som – sempre tenso a antecipar algo terrível – deixam isso claro. Ainda assim, o realizador abusa da repetição e aborda estes pesados temas com uma sensibilidade de quem passou o dia a cortar lenha. As magníficas interpretações de Brendan Fraser e Hong Chau oferecem-nos a sensibilidade que, por várias vezes, falta ao texto. 


The Whale
A Baleia

ANO: 2022

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 117 minutos

REALIZAÇÃO: Darren Aronofsky

ELENCO: Brendan Fraser; Hong Chau; Sadie Sink; Ty Simpkins; Samantha Morton

+INFO: IMDb

The Whale

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