They Cloned Tyrone é uma subversiva crítica social recheada de estilo e mistério

Terminarei esta crítica a falar-vos de filmes de John Carpenter e Wes Craven e penso que isso diz muito do que é esta estreia de Juel Taylor na realização. Apesar de falar desses dois génios mais conhecidos pelo terror, não é de terror que este filme é e ambos os filmes que irei referir misturam vários géneros – a comédia está presente em ambos – incorporando, acima de tudo, uma fortíssima crítica social. Assim também é este They Cloned Tyrone. 

A primeira imagem do filme mostra-nos uns olhos azuis que, conforme a câmara se vai afastando, se revelam ser os de um muito sorridente homem branco num cartaz publicitário com a frase “Keep’em smiling”. Ao mesmo tempo, vemos e ouvimos habitantes de um bairro – Glen – a falar sobre rumores de aparições de Michael Jackson e 2Pac, agora possivelmente disfarçados com uma nova pele negra, sendo por isso difíceis de encontrar. Os temas principais são imediatamente expostos sem que ainda nos tenhamos dado conta. É uma forma inteligente de ir plantando sementes na nossa mente sem que façamos a mínima ideia da relevância das mesmas. É também revelatório do quão este guião é trabalhado.

De imediato salta também à vista o que Taylor quer deste filme a nível visual e sonoro. A textura do grão acizentado no ecrã, as roupas que fazem lembrar a época da Blaxploitation e uma banda-sonora retro, melódica e melancólica que se ajusta na perfeição aos ritmos do filme, apostando muito no funky hip-hop. Aqui, as personagens principais não são os nossos heróis habituais. Um traficante de droga, Fontaine (John Boyega), encabeça um trio que se completa com um proxeneta, Slick (Jamie Foxx) e uma prostituta, Yo-Yo (Teyonah Parris). Enquanto Fontaine tem uma personalidade mais reservada, muito afetado pela morte do seu irmão mais novo; Slick é o total oposto, expansivo, sempre com uma piada pronta e sempre a arranjar maneira de se esquivar dos problemas. Já Yo-Yo simboliza o papel de alguém inteligente que muito sonhou mas que vive, por agora, a única vida a que teve direito. É um trio estranho e que não era suposto ser sequer um trio, não fosse o facto de Fontaine ir cobrar uma dívida a Slick e, quando regressa ao seu carro, ser morto com vários tiros. Slick e Yo-Yo tudo viram e por isso muito se admiram quando Fontaine regressa no dia seguinte como se nada tivesse acontecido. 

É aí que começam os mistérios do filme que vai, então, entrar muito no campo da ficção científica sem nunca esquecer a comédia e o que quer dizer sobre o bairro, a racialidade, o colorismo, a mobilidade social, políticas, experiencialismos e gentrificação. Ok, também vai deixando mensagens subliminares sobre o papel da igreja nestas comunidades, bem como sobre certos costumes e hábitos de consumo. Sim, They Cloned Tyronne quer falar sobre muita coisa, mas fá-lo sempre acompanhado de um ritmo falsamente pausado e de uma toada de humor que permite encarar tudo o que vemos com leveza, ao mesmo tempo que vamos absorvendo os seus golpes de consciência.

A partir do momento em que se começa a desvendar um pouco do mistério já estamos totalmente habituados à toada da obra, à sua aparente falta de urgência e já nada dali nos tirará porque o trio principal de atores faz um excelente trabalho. Boyega tem o controlo da história, embora até tenha mais momentos para brilhar perto do final. Parris tem toda a energia para viver uma personagem que é quem mais leva o trio para a frente à procura de respostas. Foxx vive o alívio cómico, sendo absolutamente perfeito no que faz, demonstrando grande naturalidade num dos papéis mais divertidos do ano.

Uma outra característica a relevar é a quantidade de referências à cultura pop que aqui existem. Se começamos o filme a falar de 2Pac e Michael Jackson, há aqui espaço para de tudo um pouco, desde SpongeBob, passando por Spider-Man, The Invisible Man, X-Files ou Nancy Drew. E, acreditem, ainda só toquei na superfície, o que até será um pouco exagerado, pois pode alienar alguns espectadores menos conhecedores. O humor também nem sempre acerta, mas mesmo quando não nos são provocadas gargalhadas ou sorrisos, temos logo a seguir uma inspirada cena – o laboratório, o restaurante, a discoteca, a perseguição, a cena final… – que nos faz rapidamente voltar a entrar na vibe. Sim, este é um estrangeirismo que aqui faz sentido. Este filme tem uma vibe muito própria e, assim que por ela são absorvidos, é difícil de lá sair.

É um filme que primeiro se estranha e depois se entranha, ficando muito bem numa colecção junto a They Live (1988) e The People Under the Stairs (1991). Tem estilo, uma identidade muito própria, uma grande banda-sonora e um argumento que vai por caminhos inesperados com sucesso. O ritmo nem sempre é o mais acertado, mas apresenta um inteligente comentário social e é sempre elevado por um elenco muito inspirado. Tudo isto tão bem conduzido por Juel Taylor, que nem parece ter aqui a sua estreia na cadeira de realizador.


They Cloned Tyrone
Clonaram o Tyrone

ANO: 2023

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 122 minutos

REALIZAÇÃO: Juel Taylor

ELENCO: John Boyega; Jamie Foxx; Teyonah Parris; Kiefer Sutherland

+INFO: IMDb

They Cloned Tyrone

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