Ontem e hoje: A banalização do mal em The Zone of Interest

Há uma tentação de olharmos para todos os mais chocantes e fatídicos acontecimentos do passado com um distanciamento temporal que assume uma forma de soberba e de superioridade face aos nossos antepassados. “Como é que eles permitiram que aquilo acontecesse?” ou “Hoje, com o facilitado acesso à informação, nada disso seria possível”. Certezas nesta vida tenho muito poucas, mas uma das que tenho é que estas frases serão também utilizadas no futuro referindo-se aos tempos de hoje e aos crimes e massacres que vão acontecendo à nossa frente sem que nada nem ninguém os impeçam. Mais chocante ainda, pois hoje com acesso a tudo e mais alguma coisa, vamos “scrollando” nas nossas redes sociais e a um video de uma criança com o crânio esmagado se sucede um post de um influencer de férias nas Maldivas, alegre e feliz, pois é disso que vivem as aparências. O mundo em que vivemos é cada vez mais Orwelliano e o estado apático com que reagimos aos horrores à nossa volta fazem as delícias de quem assim nos quer ver. Afinal, qualquer ditador sabe que é de vinho e circo que se alimenta o povo. Ou de Futebol, Fado e Fátima. 

The Zone of Interest é um filme fascinante. Pouco nos mostra dos horrores pelos quais passaram as vítimas da Alemanha Nazi nos campo de concentração. Muito nos mostra de como esses horrores foram possíveis e de como se tornaram uma normalidade aceite pela grande maioria das pessoas. Aqui não irão ver câmaras de gás, não irão ver assassinatos a sangue frio, não irão ver pessoas a morrer de fome. Aqui irão ver a banalização do horror. Aqui irão ver o lado nazi, o lado de quem pouco pensa em quem está ao lado porque olha para aquilo como algo natural. Trabalhar no campo de concentração é um emprego como outro qualquer e os gritos de morte e sofrimento que, por vezes, se fazem ouvir são apenas um pequeno distúrbio na paz da boa vida no campo. 

É nesse campo sonoro que o filme também surpreende. Surpreende porque nos demonstra como é possível ficar incomodado e horrorizado apenas com o que inferimos, apenas com o que ouvimos, apenas com o que os gritos de dor de fundo nos dizem. Entretanto, Rudolf (Christian Friedel) apenas está preocupado em desempenhar com competência o seu papel assassino no exército nazi e Hedwig (Sandra Huller), sua esposa, apenas quer manter a vida calma e tranquila da família longe do rebuliço das grandes cidades. Com um holocausto a acontecer às suas portas. A interpretação de Huller é fascinante. Completamente alheada do que se passa à sua volta, é do seu jardim que se orgulha. É aquilo que ela quer para ela e para o futuro de toda a sua família e sente-se assustada e até ofendida quando percebe que tal vida pacata e sossegada pode não durar para sempre. Quanto aos outros seres humanos que ao lado vão sofrendo e morrendo? Não lhe diz respeito.

 

Há muito para falar das valências deste filme e de como opta por diferentes técnicas para adicionar mistério e originalidade ao que nos mostra. A visão noturna de uma fascinante e muito reveladora sub-história é algo que, por exemplo, merece destaque. Existem sempre atos de resistência e, por vezes, eles vêm de quem menos se espera. Há outros que não atuam pela resistencia, mas, sim, pela fuga para bem longe, preferindo ignorar e esquecer o que ali se passa. Não é um filme que alguma vez nos deixe comfortáveis. É um filme incómodo. Por vezes, chega a ser repetitivo na forma como nos mostra a monotonia das tarefas mundanas que acontecem diante dos nossos olhos. E aí sentimo-nos mal. Nada daquilo nos deveria parecer natural. Aborrecidas tarefas domésticas ou aproveitar o sol para um programa em família não deveriam acontecer. Não com um genocídio às portas.

 

Jonathan Glazer foi autor de um fascinante discurso nos Óscares. Judeu, poderia ter ido pelo caminho fácil de falar dos horrores passados durante os anos de hegemonia da Alemanha Nazi. Mas foi homem com H grande. Subiu ao palco e fez o paralelismo com a situação que hoje os Palestinianos vivem às mãos de, curiosamente, judeus. Não os que passaram os horrores dos anos 40, mas seus descendentes. A vida é feita de ciclos e a humanidade teima em pouco aprender com os seus erros. Se nem as vítimas – ou os descendentes das mesmas – conseguem ver o que claro é e qual é o seu novo papel nas novas dinâmicas sociais e globais, que esperança nos resta? A minha esperança nos homens é diminuta. O final de The Zone of Interest é incrível, mas também um forte soco no estômago. Isto não é sobre o passado. Isto é sobre nós, homens, e sobre a banalização do mal. Da próxima vez que optarem por dar mais atenção ao jantar do vosso influencer favorito do que aos horrores que nos rodeiam, lembrem-se: este filme também é sobre vocês. 


The Zone of Interest
Zona de Interesse

ANO: 2023

PAÍS: Reino Unido

DURAÇÃO: 105 minutos

REALIZAÇÃO: Jonathan Glazer

ELENCO: Christian Friedel; Sandra Hüller; Johann Karthaus; Luis Noah Witte

+INFO: IMDb

The Zone of Interest

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