Thirteen Lives é uma experiência desesperadora!

Em 2018, doze meninos e seu treinador de futebol ficaram presos em uma caverna, na Tailândia, que acabou inundada por decorrência da chuva. Efetuar o resgate não foi tarefa fácil. Além da mobilização das autoridades e moradores locais, pessoas de diversas partes do mundo uniram forças e não mediram esforços para que os treze saíssem da caverna com segurança. 

Em Thirteen Lives (Treze Vidas: O Resgate), Ron Howard (realizador) conta essa surpreendente história de luta, união e esperança, a partir da perspectiva dos mergulhadores britânicos John Volanthen (Collin Farrell) e Rick Stanton (Viggo Mortensen), peças chave para o sucesso da operação de resgate.

Em um primeiro momento, sente-se uma certa desconexão com a obra. Os eventos que antecedem a inundação acontecem muito rápido, sem que seja possível sentir a tensão e o perigo envolvidos em cena. Entretanto, é a partir do momento em que se inicia a mobilização de procura e resgate dos desaparecidos que Thirteen Lives mostra a que veio, e escala sua tensão a níveis agonizantes.

O início das operações é marcado por um grande desespero em torno da dúvida do que veio a acontecer com os desaparecidos. Por mais que, se tratando de um caso famosíssimo de repercussão mundial, já saibamos tanto o paradeiro dos meninos, quanto o fato de que eles viriam a ser resgatados antes sequer de darmos início ao filme, é transmitida uma genuína sensação de preocupação e gradual desesperança, tanto das famílias, quanto dos envolvidos na procura. O desespero dos pais, que, ao menos, desejam encontrar os corpos dos filhos, e o pessimismo da equipe de resgate, que entende que as chances de sucesso da operação são mínimas, criam um clima constante de desconforto e ansiedade que fazem ser impossível não se envolver com o enredo do filme.

Mas é quando acompanhamos os mergulhos nos confins da caverna, que Thirteen Lives chega ao seu ápice de agonia. O trabalho de câmera e a captação, mixagem e edição de som aqui são essenciais para traduzir a tensão envolvida no trabalho dos mergulhadores. Os corredores pelos quais nadam são estreitos, e a água se movimenta com violência, fazendo do trajeto percorrido por eles extremamente claustrofóbico e exaustivo. Estamos sempre grudados nos mergulhadores, em movimento, com a visibilidade prejudicada. Ouvimos sua respiração como se estivéssemos abraçados a eles, submersos, amarrados a pesados cilindros de oxigênio que soam uma melodia de agonia ao se chocarem com as opressoras paredes rochosas da caverna. Tais cenas são dignas de pesadelos.

Uma abordagem que ajuda a subir a tensão nos mergulhos, é o uso de gráficos que invadem a tela para nos situar da posição dos mergulhadores na caverna. Pois, não só esses gráficos nos mantém atualizados de sua localização, como nos indicam o tempo decorrido do mergulho até o momento da cena. Se as condições do trajeto percorrido pelos mergulhadores já são motivos suficientes para se contorcer de agonia, imagine ter em mente que, somando ida e volta, cada viagem pode levar mais de dez horas!?

Thirteen Lives não nos deixa espaço para relaxar. Mesmo quando as crianças e o treinador são encontrados, o clima de pessimismo permanece. O fato é que a jornada para a liberdade é cruel, e as chances de sobrevivência dos infelizes são quase nulas. O terror dessa realidade é desconcertante, e nos acompanha fielmente até os finalmentes da obra. Sem dó.

Agora, no campo das atuações, temos excelentes trabalhos sendo feitos em cena, especialmente dos protagonistas, Farrell e Mortensen.

Farrell vive um homem esperançoso e passional. Nas crianças que procura resgatar, projeta todo zelo e carinho dado ao seu próprio filho. Pensa nele também ao se arriscar pelos corredores apertados da caverna, pois sabe que para garantir a segurança dos meninos e às suas famílias o direito de se fazerem completos, pode pôr tudo o que é seu a perder. É interessante ver Farrell em uma representação mais contida, diferente dos habituais papéis afetados que costuma assumir. 

Mortensen é um aposentado amargurado e pessimista. Sua vontade de fazer o bem é notável, mas seu medo de se envolver e criar falsas esperanças para quem ajuda e para si mesmo, engatilham uma postura fria e distante que funciona como arma de autodefesa. O medo de ferir a si mesmo e aos outros ao seu redor, traz grande profundidade à personagem de Mortensen, que entrega no olhar muita vida e emoção.

Mas, antes de finalizar, devo ressaltar um pequeno incômodo com o trabalho de edição do filme. De um modo geral, a montagem funciona muito bem. Porém, em alguns momentos específicos, há o uso de cortes secos nas transições de uma cena para a outra. Esses cortes acontecem de forma abrupta, e não condizem de forma alguma com o ritmo do restante da obra. Talvez isso tenha acontecido por problemas com as gravações brutas, e o resultado final foi o melhor produto que a mesa de edição conseguiu alcançar. É uma hipótese, mas acho pouco provável. O mais possível, é que houve a intenção de evitar que o filme, que já apresenta  quase 2h30 de duração, se estendesse demais. Caso esse seja realmente o caso, é uma pena. Alguns minutos a mais de transições mais suaves fariam do ritmo desesperador do longa ainda mais consistente.

Thirteen Lives é puro desespero. É também uma prova de que o esforço e a união entre as pessoas são capazes de proporcionar feitos incríveis. Ron Howard pode ter tido a vantagem de adaptar para o meio audiovisual uma história que por si só parece ficção, mas ele e sua equipe merecem total apreço pelo belo produto final que apresentaram. Que essa magnífica história não seja jamais esquecida.


Thirteen Lives
Thirteen Lives: O Resgate

ANO: 2022

PAÍS: Reino Unido

DURAÇÃO: 2h 27min

REALIZAÇÃO: Ron Howard

ELENCO: Colin Farrell, Viggo Mortensen, Joel Edgerton, Tom Bateman

+INFO: IMDb

Thirteen Lives

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