Till Death tem seus méritos, mas peca bastante

Tento sempre manter a mente aberta quando vou assistir a um filme. Com Till Death (Até à Morte) não foi diferente. O ar de filme genérico e a escalação da não muito inspirada Megan Fox como protagonista me fizeram torcer o nariz para o longa realizado por S.K. Dale. Mas, apesar disso, me joguei de cabeça na obra e permiti que ela me surpreendesse. E ela me surpreendeu.

Não me entendam mal, Till Death é sim um filme ruim. O que me impressionou foi que, apesar da baixa qualidade, o longa se apresentou como uma obra visualmente ousada, diferentemente do estilo genérico que eu esperava. O quê? Estou me contradizendo? Eu disse que tento manter minha mente aberta, não é como se eu sempre conseguisse esse feito.

Durante todo o longa, deparei-me com match cuts e, chegando ao final do filme, S.K. Dale arrisca uma inversão de perspectiva que deixa o espectador observando o horizonte de cabeça pra baixo. Esse momento é notável pois, diferente de outras escolhas questionáveis que a realização faz, funciona muito bem e agrega valor à cena, trazendo para seu público a sensação de tensão pela desorientação. Entretanto, infelizmente, outros elementos do filme mostram-se perdidos e preguiçosos.

A banda sonora, por exemplo, não sabe a que veio aqui. Apesar da boa impressão que causa nos instantes iniciais, quando flutuamos acima dos prédios vislumbrando uma bela tomada da noite metropolitana, logo percebemos que as músicas compostas por Walter Mair são confusas, desconexas de muitas das cenas. Há, sim, momentos bons do trabalho sonoro, como no início do segundo ato do filme, quando optam por usar o silêncio para destacar a ambiência e a tensão na respiração da protagonista. Porém, por diversas vezes, a banda sonora acaba por denunciar ameaças ainda não apresentadas, como acontece em meados do fim do primeiro ato: já entendemos a essa altura do filme que o casamento da protagonista não vai bem e que, por conta disso, mantém uma relação extraconjugal com outro homem. Mas, além desse conflito, não sabemos ainda o que ameaça a personagem vivida por Megan Fox, e, mesmo assim, a banda sonora insiste em anunciar um perigo, até então, desconhecido. O resultado dessa confusão toda é a inevitável desorientação do público, que é levado a se perguntar: o que eu deveria estar temendo nesse momento?

Já o roteiro (argumento) de Jason Carvey nem tenta esconder sua preguiça, o texto é totalmente seletivo. Acompanhamos em Till Death uma dinâmica de gato e rato, onde dois criminosos caçam uma vítima que se esgueira pelo cenário na tentativa de encontrar uma fuga. O problema é que Carvey brinca de Deus e decide quando os criminosos podem ou não ouvir e ver sua vítima, independente do quão barulhenta ela é ou o quão bem se esconde. É muito difícil acreditar na urgência proposta quando se percebe que a vítima tem a proteção divina de um roteiro mal escrito.

Por falar em texto ruim, que personagens pobres. Existe uma em específico que me tirou do sério: o marido da protagonista, vivido por Eoin Macken. Há um plot twist envolvendo a índole dele que, infelizmente, não surpreende ninguém. A atuação, somada às escolhas de enquadramento, e a já citada banda sonora, estragam qualquer chance do filme nos pegar desprevenidos. Acredito que o único saldo positivo em relação a esse núcleo está na representação visual da protagonista. Megan Fox é uma sex symbol. O caminho fácil seria despi-la ao longo da trama na tentativa de apelar ao público masculino. Todavia, aqui se busca o caminho oposto: Dale opta por constantemente adicionar novas camadas de roupa à protagonista, além de evitar takes que sexualizem a atriz. Parece besteira evidenciar isso, mas, diferente de muitas produções semelhantes, notamos que há um cuidado em construir uma personagem que se adapta às adversidades, fazendo os seus êxitos serem mais críveis, e fugindo da sexualização banal que costuma ocorrer em filmes do gênero.

Till Death tem seus méritos, mas peca bastante. O filme é ruim, sim, mas não chega ao ponto de ofender quem o assiste, e pode entreter quem estiver entediado e a procura de um passatempo qualquer.


Till Death
Até à Morte

ANO: 2021

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 88 minutos

REALIZAÇÃO: S.K. Dale

ELENCO: Megan Fox; Eoin Macken; Callan Mulvey

+INFO: IMDb

Till Death

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