Val (ou a demonstração de que no fim do dia somos apenas pessoas)

Isto não é um documentário. Isto é um conto de uma pessoa sobre si, sobre o que a guia e sobre as suas jornadas, pela sua própria autoria. Esta explicação tem todas as palavras para enviesar o tom de “Val” ao epítome do pretensiosismo, só que não. É apenas um gajo a fazer o que melhor pode: fala de si no formato artístico que ama.

Fui apresentado a ver esta obra (não vou chamá-la de filme, nem documentário nem biografia. É tudo isto, portanto não serei eu o pretensioso a criar um substantivo novo, ou então apenas ignorante para não saber a palavra que defina tal amálgama…) sob a premissa: é um documentário sobre Val Kilmer; “o quê? O gajo do Batman muito mau e outros papéis esquecíveis?”

Os que estiverem habituados a ler o que acho de valor para dizer, saberão que não há coisa que mais adore em cinema que assistir a uma entrega sem qualquer expectativa formada, nem pela menor nesga de influência positiva ou negativa ao pensamento. A segunda melhor coisa é, definitivamente, ser surpreendido pela positiva, quando a pré-concepção está ao nível do desdém. Foi isto que aconteceu. Chega de falar de mim, porque pretendo falar de Val Kilmer, ou melhor, falar de como Val Kilmer fala de si.

A última coisa que vi de Val Kilmer foi uma participação em Fellon, de 2008, que remeti a “filme para cheque” por parte do sujeito que co-protagonizou Tombstone e protagonizou The Saint, Top Gun, Batman Forever e (mais atrás, que recordo com imenso carinho) Top Secret, portanto o desprezo que tinha em ver um documentário por um actor, para mim, esquecível estava instalado, com adicional sabor a bílis ao entender que era ele o contador da sua história… até ver que não estava tudo bem.

Val está velho, abatido de aparência e com marcas visíveis de um cancro respiratório que, até à data, superou. Aqui ainda não me verguei. Entendi ser um último reduto, um apelo à lágrima, um forcing por atenção a este outrora famoso de segunda camada… até ver que não se tratava disso.

Val leva o seu tempo a desdobrar o que prontamente mostra que quer fazer: registar uma carta de amor que tem vindo a escrever por toda a sua vida à razão de ser quem é. Representar. Pelo caminho regista também quem é, como se sentiu, se sente e insiste em querer sentir para continuar a caminhada que é a vida. Tem um interminável arquivo de vídeos caseiros que compilou para contar a sua história e a história do seu ofício.

Começo a ser atraído… Embrenho-me nas idiossincrasias e perspectivas do que este senhor entende por representar, de como tentou fazer o que gostava, pela forma de como aprendeu e levou a sério essa aprendizagem (afinal de contas ele é aluno da Julliard, que, a par de Berkley, é uma das mais conceituadas escolas de artes dos Estados Unidos) e de como a sedução de Hollywood se afigurou irresistível, tendo pelo caminho comprometido os seus ideais artísticos para a fama e fortuna que a máquina de produção e negócio de Los Angeles proporcionou. O conflito interno é constante, porém nunca desesperante, afinal de contas ele é bem pago por trabalho que considera abaixo do que entende ser capaz, sempre a empreender por papéis que o desafiassem de forma autónoma e diligente.

Estou completamente do lado dele agora… A vida particular e profissional são a mesma montanha-russa em viagens paralelas que culmina em pontos de acidente sob os quais o sujeito é alvo, causador, vítima. Quando lá se estabiliza num cruzeiro de paz pelo obscurantismo da ribalta fundida e com isso um sossego desapegado da pressão dos holofotes, enceta num projecto de paixão que é abruptamente parado pelo cancro…

Val é arrebatador. Ensina e recorda do que é ser pessoa apesar dos louros que as câmaras captam e as tormentas que os bastidores escondem. A carta de amor foi selada e entregue ao destino com sucesso. 4 estrelas.


Val
Val

ANO: 2021

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 109 min.

REALIZAÇÃO: Ting Poo, Leo Scott

ELENCO: Val Kilmer, vários

+INFO: IMDb

Val

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