Watcher e o horror de ser mulher

Watcher tirou meu sono. Fez isso pois atiçou meus medos mais primitivos e me atingiu com extrema angústia. Mas também pois me fez refletir sobre a insignificância disso em relação ao horror cotidiano do qual sou incapaz de me identificar, restando espaço apenas para a empatia e a revolta.

Tenho pavor do escuro e detesto o silêncio. A sensação de mal poder enxergar dois palmos à minha frente me deixa desesperado e muitas vezes me faz perder a razão. Já o silêncio me sufoca. Ambientes silenciosos me deixam em um estado intenso de alerta, que facilmente me engana e garante que qualquer ruído diferente gere extrema desconfiança. Some as duas coisas, e o resultado é uma revoltante e irracional dificuldade para dormir. Minhas noites de sono geralmente se resumem em muita insegurança e a incessante sensação de estar sendo observado.

Em Watcher, entretanto, o medo está longe de ser irracional.

Julia (Maika Monroe) se muda para um apartamento na Romênia com seu marido. Em um país estrangeiro do qual não é familiarizada com a língua nativa, ela passa os dias sozinha, tendo apenas a companhia de um homem que a observa da janela do prédio ao lado.

Sente-se de longe o desconforto de Julia causado pela solidão, e o silêncio tem um papel muito importante nisso. A banda sonora se faz presente aqui, sim, e, por mais que seja bastante e muito bem usada, são os momentos de quietude que se destacam em Watcher. O tédio e a monotonia são desagradáveis, mas tudo isso toma outras proporções à medida que Julia percebe estar sendo observada dia e noite. A ausência de distrações sonoras levam a tensão às alturas e a sensação de insegurança e mal estar são inevitáveis.

Apenas com esta, que é uma das várias camadas que compõem o filme, já me senti totalmente imerso. A relação da ansiedade de Julia com o que sinto durante a noite foi imediata, graças ao primor técnico apresentado. Mas é a partir do assunto em que se aprofunda que Watcher consegue mostrar seu brilhantismo, ao mesmo passo que me afasta da identificação inicial que tive com a personagem.

Julia é mulher, e por isso convive com inseguranças e medos diários que jamais serei capaz de entender por completo. Julia não pode andar nas ruas sem deixar de estar alerta, pois é e sempre será uma potencial vítima de assédios e/ou violências contra o seu corpo e moral; Julia vive com a constante angústia de não ter voz perante a sociedade em que vive; Julia tem de aturar a realidade de que não pode ser levada a sério e que, provavelmente, irão duvidar de sua sanidade ao denunciar violações ao seu íntimo.

Tudo isso está distante de mim, por mais empático que seja. E o maior mérito de Watcher se faz a partir de escolhas pontuais da realização, que entende essa iminente distância com parte de seu público, e faz de tudo para traduzir toda essa agonia visual e sensorialmente. Assim como o já citado excelente trabalho sonoro, a fotografia de Watcher se faz certeira. Preferindo planos com pouca mobilidade, ou até estáticos, Benjamin Kirk Nielsen (diretor de fotografia) e Chloe Okuno (realizadora e argumentista) compõe quadros sufocantes e opressores, dispondo Julia em planos abertos, hora vazios, hora repletos de pessoas, mas sempre solitários. A sensação de solidão se agrava com a insistência da realização em não legendar diálogos em romeno. Julia está sempre por fora dos acontecimentos que a cercam e, para piorar, seu marido parece fazer questão de sempre abordar assuntos importantes na língua que não domina, deixando-a por fora do que julga desnecessário para o seu conhecimento.

É revoltante, é cansativo, é desesperador.

Exceto por uma cena boba de pesadelo que parece totalmente deslocada do restante do filme, Watcher mantém um excelente ritmo de gradual desconforto e desespero que muito me instigou e que, certamente, irá se comunicar de forma muito mais intensa com o público feminino. O argumento não desaponta em relação aos seus desenvolvimentos e conclusões, encerrando todos os assuntos que ousa tocar com maestria. Um excelente trabalho, um belo filme.


Watcher
Watcher

ANO: 2022

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 1h 31min

REALIZAÇÃO: Chloe Okuno

ELENCO: Maika Monroe, Karl Glusman, Burn Gorman

+INFO: IMDb

Watcher

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *