Em West Side Story, Spielberg melhorou o que estava bem e corrigiu o que estava mal

Porque é que Steven Spielberg decidiu só agora aventurar-se pelo género musical? E porquê voltar a adaptar para o cinema um das peças mais famosas da história que já tinha originado, há 60 anos atrás, um dos filmes mais bem sucedidos de sempre? Só ele poderá dar essa resposta, mas a verdade é que peça por peça, cena por cena, atuação por atuação, esta versão de West Side Story é superior em todos os sentidos.

O realizador procurou diferenciar-se da versão anterior, trazendo os latinos para o centro da tela, representados por todas as suas cores e diversidade – uma grande falha da versão de 61 que “maquilhou” atores para parecerem mais negros – e trouxe também especialistas na arte do canto e da dança, evitando polémicas da versão anterior que envolviam vozes gravadas por cima das dos atores principais. Só por esses dois motivos, esta versão já valeria a pena. Mas Spielberg foi além disso: empregou uma maior magia à realização, com planos verdadeiramente do outro mundo, através de uma utilização impecável de luzes, cores e sombras. Para isso, claro, precisou que todos os outros elementos técnicos estivessem à altura. E estão. Tudo o que é componente técnica merece nota máxima, mas uma especial menção deve ser feita à fotografia intemporal de Janusz Kaminski – um habitué nos filmes de Spielberg – e ao grande trabalho de edição e design de produção. No campo musical, logicamente, não há falhas. Se as excelentes músicas já são nossas conhecidas – e são fantasticamente interpretadas por estes atores – todos os outros elementos sonoros não lhe ficam atrás. Nem a dança, claro! Isto nada seria sem os números absolutamente fascinantes em cena, com novas coreografias absolutamente sensacionais.

Nas atuações, há dois atores secundários que comem o ecrã e concentram grande parte das atenções: Ariana DeBose no papel de Anita, a namorada de Bernardo (que é o irmão de Maria e líder do gang porto-riquenho, os Sharks) tem o papel emocionalmente mais forte, sentindo-se ao longo de toda a história dividida entre dois mundos e entre dois caminhos. Do outro lado, como “chefe” dos Jets, Mike Faist tem uma extraordinária interpretação como Riff, transmitido uma grande credibilidade à personagem que é a mais rebelde de todo o elenco. Além de David Alvarez ter também uma apaixonante interpretação como Bernardo, há ainda a destacar Rita Moreno, que há 60 anos venceu o Óscar no papel de…Anita (!) e que vive agora uma nova personagem, Valentina, procurando ser ela um elo entre as duas comunidades – a força da razão que todos parecem respeitar, sem ouvir realmente o que tem para dizer. Mas, claro, West Side Story não se faz sem o seu Romeu e a sua Julieta, ou melhor dizendo, sem Tony e Maria. Rachel Zegler brilha no papel de Maria – e como ela também canta bem! – dando a profundidade e dimensão que a personagem merece, não ficando nem um pouco atrás do que antes se viu por Natalie Wood. Esta é a estreia de Zegler no cinema, mas iremos, certamente, ouvir falar muito dela no futuro. Já Tony é vivido por Ansel Elgort, que cumpre o que lhe é pedido, sem muitos excessos.

Spielberg procurou não fazer uma cópia cena por cena do filme que a maioria de nós conhece (embora a versão deste filme seja, aparentemente, mais fiel à peça original). A espinha dorsal é a mesma – Jets/Sharks, o baile, o amor proibido, o duelo, a tragédia – mas o cineasta deu-lhe uma entidade própria, indo além dos planos magníficos. Há cenas novas, cenas modificadas e até alterações bastante importantes no que diz respeito ao destino de personagens centrais e ações subsequentes. Mais uma vez, a cena do baile foi a que me fez acelerar a pulsação e a primeira que me deixou a sorrir de boca aberta, sendo a forma como Tony e Maria “se cruzam” verdadeiramente mágica e bem construída. A cena do grande duelo é também agora mais violenta, mais sangrenta, mais mortal e mais realista, enquadrando-se melhor com o que o terceiro ato pede. Continuo a ter alguns problemas com a forma como a personagem de Maria reage ao desfecho do duelo. No entanto, deve ser aqui dada a mão à palmatória, pois existe uma maior construção desses momentos, com cenas extra que resultam bem no fortalecimento da recente relação e que fazem engolir melhor a reação de Maria. Não estou ainda totalmente convencido, mas o amor sente-se e não se deve questionar!

West Side Story era o meu musical favorito ontem. West Side Story é o meu musical favorito hoje. Até ontem a versão de 61 era a minha preferida, mas esta nova versão é em tudo superior ao clássico filme, exceto no fator novidade (embora também o 1º filme seja uma adaptação da peça). Spielberg pareceu inspirar-se no lema de campanha de João Lourenço, mas foi além das promessas: melhorou mesmo o que estava bem e corrigiu o que estava mal.


West Side Story
West Side Story

ANO: 2021

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 156 minutos

REALIZAÇÃO: Steven Spielberg

ELENCO: Ansel Elgort; Rachel Zegler; Ariana DeBose; David Alvarez; Rita Moreno; Mike Faist

+INFO: IMDb

West Side Story

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