Where the Crawdads Sing demonstra porque uma boa história não é o suficiente

Há livros que marcam a nossa vida. Há filmes que marcam a nossa vida. Parece que o livro no qual este Where The Crawdads Sing marcou muita gente pelo mundo fora. Duvido que este filme o faça.

O enredo é interessante. Um corpo é encontrado no pântano e as suspeitas apontam para Kya, uma rapariga “selvagem” que vive sozinha no pântano desde a sua infância, o que contribui para uma aura de misteriosidade que alimenta boatos e mitos entre as pessoas da vila. O filme segue duas linhas temporais onde no passado vemos a vida de Kya a se desenvolver com a própria a descobrir-se a si e ao mundo e no presente vemos a investigação e o julgamento da mesma. Repito, isto é interessante. Percebemos porque Kya é hoje como é, percebemos porque há desconfianças de parte a parte, mas percebemos acima de tudo como a vida mal tratou esta menina que teve rapidamente de aprender a ser mulher.

No entanto, se as bases são boas, o mesmo não se pode dizer da execução. A forma como a história é contada em dois horizontes temporais até não é o pior – embora seja uma técnica que, por vezes, não resulta pois tira-nos da ação que queremos ver para nos levar para um tempo e ação totalmente diferentes. O pior é que tudo é-nos contado de uma forma melosa, cena após cena, num autêntico festival de azeite em que apenas nos leva a revirar os olhos vezes sem conta. Para isso muito ajuda o diálogo “meh” próprio de adolescentes com mais sentimento do que substância. Para isso muito ajuda a escolha musical que acompanha quase todas as cenas do filme querendo que entremos num mundo que o mais provável é nos levar até a um sono profundo. Confesso que olhei para o meu relógio por várias vezes, confesso que suspirei algumas vezes.

O terceiro ato chega e as coisas melhoram – nas duas linhas temporais. É, sem dúvida, o segmento mais forte deste filme, pois permite-nos perceber os conflitos de forma mais aprofundada e permite-nos também tirar algumas conclusões, empatizando bastante com aquela menina obrigada a crescer e mal tratada por todos, até por aqueles a quem ela deu a sua confiança. O desfecho do filme não é surpreendente, é fácil de entender que é para ali que nos leva. Mas, pelo menos, é apresentado de um modo coerente e com algumas belas cenas a fechar a história.

Belas cenas são aliás um dos pontos fortes deste filme. A fotografia está a um excelente nível, assim como todo o guarda-roupa que acrescenta pontos a esta história intemporal. As atuações são, no geral, razoáveis, mas Daisy Edgar-Jones, como Kya, está bem acima da média com uma forte interpretação permitindo identificar-nos com a personagem sem nunca cair em exageros dramáticos que seriam fáceis nesta situação. A realização é do mais genérico que podem encontrar, mas, ainda assim, está uns furos acima do trabalho de edição que falha em vários aspetos, principalmente na forma como (não) cortou o que havia para cortar. As cenas estendem-se até mais não, até estarem completamente saturadas e, caso vejam isto em casa, dificilmente irão resistir a ir até ao frigorífico, trazerem uma bebida e perceberem que tudo está praticamente no mesmo sítio.

De uma forma geral, Where the Crawdad Sings tem méritos, mas não os suficientes para ser recomendado. O melhor do filme? A sua história. O pior? A forma como essa história é contada. Duas horas que parecem quatro é o resultado final.


Where the Crawdads Sing
A Rapariga Selvagem

ANO: 2022

PAÍS: EUA

DURAÇÃO: 125 minutos

REALIZAÇÃO: Olivia Newman

ELENCO: Daisy Edgar-Jones; Taylor John Smith; Harris Dickinson; David Strathairn

+INFO: IMDb

Where the Crawdads Sing

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