Todos nós somos A Pior Pessoa do Mundo

O que andamos aqui a fazer? O que é ser adulto? Porque escolhemos o que escolhemos? É com base em várias premissas filosóficas que Joachim Trier nos apresenta este The Worst Person in the World. Não, Julie não é a pior pessoa do mundo. Julie é apenas uma pessoa à procura do seu espaço, como todos nós e isso é que torna este filme tão relacionável.

O filme mostra-nos quatro anos na vida de Julie, já na segunda metade dos seus 20 anos, a chegar aos 30. Aquela idade onde já é suposto sabermos tudo o que queremos, termos a nossa vida organizada e uma época em que a sociedade faz sempre questão de nos lembrar disso: “e filhos para quando?”, “e casamento?”, “ainda não trabalhas?”…estas são apenas algumas perguntas com as quais somos bombardeados sem ainda termos percebido muito bem o que é isto de sermos pessoas completas. É uma altura em que percebemos que os nossos sonhos sempre foram gigantes e que talvez nos tenhamos que contentar com uma vida mais mundana. Uma época em que nos queremos agarrar à pessoa que éramos – e que ainda somos em menor medida – sendo confrontados a enfrentar a dura realidade: a vida segue em frente e nós também temos que seguir.

O conceito de tempo é, aliás, magicamente explorado por Joachim Trier. Numa determinada cena, o realizador norueguês até se dá ao luxo de parar tudo o que se passa à volta de Julie, como se esta tivesse superpoderes, numa cena onde a edição também deslumbra. E que bom que seria termos esse superpoder! Não só parar literalmente o mundo à nossa volta, mas parar aquela fase da nossa vida, aquele início de paixão, de amor, aquela noite, aquela conversa, aqueles momentos que parecem banais na altura mas que tanto vão significar para toda a nossa vida.

Esses momentos não precisam de ser perfeitos. Tal como nós, humanos, não o somos. Julie é uma rapariga confusa, que até a nós, por vezes, nos enerva, tais as suas indecisões. Ora quer ser médica, ora psicóloga, ora fotógrafa. Ora se apaixona pelo seu professor da faculdade, ora se apaixona por alguém mais velho 15 anos que parecia ter pouco em comum com ela, ora deixa tudo repentinamente atrás das suas emoções. Julie não sabe ainda quem é, mas sabe que não é aquilo que os outros queiram que ela seja e a interpretação de Renate Reinsve como Julie é uma das melhores do ano. Cheira a sinceridade, transpira pânico, confusão, juventude, sonhos, desilusões, banhos de realidade…cheira a vida. E o que dizer de Anders Danielsen Lie, como Aksel, o seu namorado mais velho? Ele sabe que o seu tempo é um tempo diferente de Julie, mas mais maduro, reconhece isso, quer lutar, quer também mais, mesmo sabendo que é uma pessoa que talvez pense de uma forma que nunca irá ser compatível com as novas gerações. Percebe-se tudo no seu olhar, nas suas palavras e emoções. Há passagens de Aksel tão honestas que quase parecem uma mensagem pessoal de Trier. E que bem que o cineasta trabalha tudo aqui: o drama, a comédia e tudo nos entretantos. Há cenas – como a dos cogumelos mágicos – que nos irão deixar boquiabertos pela sua excentricidade, mas é nos silêncios e nos momentos mais introspetivos que Trier nos dá verdadeiros socos no estômago.

No fundo, The Worst Person in the World é um retrato fiel da vida. Da que queremos, da que projetam em nós, da que realmente vivemos. Estamos todos cá de passagem e, talvez, nem haja qualquer objetivo, portanto resta-nos vivê-la como o fizeram todos os outros antes de nós: sem livro de instruções. Rimos, choramos, fazemos coisas doidas, frustramo-nos, desiludimo-nos a nós e aos outros, mas no final, a pessoa que seremos será o resultado de alguns acasos e de todas as nossas escolhas.


The Worst Person in the World
A Pior Pessoa do Mundo

ANO: 2021

PAÍS: Noruega

DURAÇÃO: 128 minutos

REALIZAÇÃO: Joachim Trier

ELENCO: Renate Reinsve; Anders Danielsen Lie; Maria Grazia Di Meo; Herbert Nordrum

+INFO: IMDb

The Worst Person in the World

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