You People (ou a síndrome imunodeficiente da pedagogia imposta em Meet the Parents)

Este pedaço de estreitamento do abismo de uma etnia pautada pela sua demarcação económica e influente da plebe, a outra etnia no espectro oposto do totem hierárquico social e económico daquele país, num palco onde reina a plasticidade, superficialidade e culto da idolatria da atenção, a que se chamou de filme só comprovou por contraste certos pontos que o Ye fez.

Kenya Barris já anda nestas lides há tempo suficiente a propagar a mensagem negra através do que cria e tão necessário se tornou para perfurar a bolha de conforto do público que, pelo seu bem, usa do entretenimento televisivo para escapar à realidade dura da vida real, e ainda mais dura do que não lhes afecta, com coisas como Black-ish (de 2014 a 2022) e Shaft (2019) para saber que informar e educar de formas pedagogicamente aliciantes é o caminho sinuoso mas com rails de estrada a percorrer.

You People é a ponte de Entre-os-Rios na primeira metade do filme e Pedrógão Grande na segunda metade. Barris realizou isto e escreveu isto com Jonah Hill.

Jonah já se mostrou fantástico intérprete de papéis num espectro vasto de alcance de representação. Aqui quis ser propagandista. Não funcionou. A plasticidade da sua personagem é a mesma plasticidade desconfortável e forçada com que a representou. Provavelmente isto deverá ser, por definição, papel de carreira, tal foi a naturalidade a alcançar tamanha massa fecal por quase duas horas de colonoscopia visual.

“For the culture” foi o lema desta coisa audiovisual, amplamente repetido, papagueado e cunhado.

Esta coisa audiovisual não deixou esquecer por momento nenhum que queria dar um tom “urbano” (coloquialismo de nova era para definir negro-americano, de gueto, de substracto da sociedade afecta à genealogia negra), tal foi a aberrante edição inspirada nos efeitos especiais usados em videoclipes de rap dos anos 90, cortes abruptos e cheios de “atitude” e “irreverência”, transições de planos fixos afastados e apertados da mesma coisa.

Enfim, uma panóplia de artifícios para apelar a sabe-se lá o quê de infanto-juvenil berrante de colorido e cheio de vida recauchutada de bisturi lenticular, digno de envergonhar Wes Anderson.

Com injecções de colagénio de péssima banda-sonora que não serve o filme e serve-se mais a si através de hits de contemporaneidade oca e insubstancial, o único marco de sublime bom-gosto que compõe o ramalhete é uma faixa do intemporal Watch the Throne.

O product placement é berrante na aparente súplica de trocos para pagar o elenco claramente caro e amplamente subaproveitado, quiçá moralmente persuadido a comprometer-se com esta carga missionária de espalhar a boa-nova de que aqueles da estrela de David não são assim tão diferentes na medição de pénis subjugado e flagrantemente agredido daqueles que apanharam algodão.

Destaque-se David Duchovny dos demais. Foi um genuíno escape cómico, furos acima de comediantes que integraram o elenco, até mesmo acima de Eddie Murphy que, com quarenta Norbit’s, 26 Beverly Hills Cop’s e 18 Nutty Professor’s, fez finalmente o maior frete profissional da sua vida.

Esta coisa audiovisual não mediu esforços para “ensinar, elucidar e sensibilizar” através de diálogos provocatórios mas nada desafiadores, que ignoram a condição humana inerente nas interacções entre etnias distintas, ignorando o tribalismo inerente ao animal Homem, ignorando as nuances históricas do porquê do actual “tu cá, tu lá” e as formas de verdadeira e estrutural aproximação, primeiro da etnia espezinhada ao rumo do seu empoderamento socio-económico, tal como a etnia dominante e depois sim a aproximação de etnias, para que toda a gente se relacione em pé de igualdade e não numa dinâmica de dinâmicas.

Os dois grandes grupos representados não se viram representados nesta coisa audiovisual. A família da estrela de David e a família de Kunta Kinte não representam de onde as suas mensagens se fazem ouvir mais abrangentemente, principalmente a família negra-americana.

O arco de dificuldades entre protagonistas tem a rigidez estrutural de uma torre de jenga.

Isto é uma comédia romântica que visou ensinar sobre coisas. Isto é uma comédia romântica que me fez rir muito mais na segunda metade do filme que na primeira porque tive de ter algo para me agarrar para suportar o guião desinspirado e desprovido de noção. Isto é uma comédia romântica que apontava a desafiar o pensamento do espectador mas acabou por desafiar o espectador sobre noções de certo e errado, de moralidade e ética, do que deveria ser em vez do que foi mostrado ser nesta coisa audiovisual. Isto é uma comédia romântica que tentou ensinar e propagandear tanto para no fim não se aprender nada porque “o amor” resolveu.

You People como título, apontar o dedo não só narrativamente de uns aos outros, mas claramente ao espectador, numa altivez de sinalização de virtude com austeridade de Dikembe Mutombo. Não gosto de ser repreendido quando o objectivo é ensinar-me. Não é o caso mas poderia bem ser ignorante perante os temas abordados e esta coisa audiovisual foi um desperdício de tempo precioso a tentar qualificar-me.


You People
You People

ANO: 2023

PAÍS: EUA

DURAÇÃO:

REALIZAÇÃO: Kenya Harris

ELENCO: Jonah Hill, Eddie Murphy, David Duchovny, Lauren London, Julia Louis-Dreyfus

+INFO: IMDb

You People

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