A noite em que os Globos quiseram voltar a ser os Globos

Depois de todas as polémicas que colocaram – e continuam a colocar – interrogações sobre o futuro dos Globos de Ouro, a cerimónia voltou a ter transmissão televisiva e a contar com a grande maioria das grandes estrelas de Hollywood na sua edição deste ano. A grande surpresa? A cerimónia foi bastante melhor do que o esperado e até melhor do que muitas em anos pré-polémicas relacionadas com casos que roçam a corrupção ou o tráfico de influências, envolvendo acusações de racismo e falta de representatividade. Será o suficiente para o evento e a sua Associação – Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood (HFPA) – recuperar toda a sua credibilidade?

Os vencedores

A história de premiações deve sempre destacar os maiores vencedores. Mesmo considerando sempre a subjetividade associada a qualquer tipo de prémios de arte, quem segue a premiação sabe que a história nos diz que há sempre inesperados e estranhos vencedores que, por várias vezes, parecem querer agradar mais a certos segmentos da indústria do que valorizar os melhores trabalhos. Este ano os Globos foram surpreendentemente…pouco surpreendentes. A maior surpresa no cinema terá vindo da categoria de filme estrangeiro. Na televisão, a vitória de House of the Dragon terá sido a mais inesperada da noite.

Cinema

Podemos dizer que The Banshees of Inisherin e The Fabelmans foram os grandes vencedores da noite. O primeiro venceu a categoria de “Melhor Filme – Comédia/Musical” (questionável a inclusão do filme na categoria…), “Melhor Argumento” e “Melhor Ator” com este prémio a ir pela segunda vez para Colin Farrell, depois de o ter conquistado por In Bruges, em 2009, curiosamente também um filme de Martin McDonagh, tal como este The Banshees. Já The Fabelmans levou o prémio de “Melhor Filme – Drama” e o tão importante prémio de “Melhor Realizador” para Steven Spielberg, a sua 3ª vitória na história da categoria.

Outro esperado grande vencedor da noite foi Everything Everywhere All At Once conquistando duas categorias de atuação, com Michelle Yeoh a levar o prémio de “Melhor Atriz – Comédia/Musical” pela primeira vez aos 60 anos e Ke Huy Quan, para sempre o nosso “Short Round” a vencer como “Melhor Ator Secundário”. Nas outras “grandes categorias” da noite, Cate Blanchett conquistou mais um Globo, o de “Melhor Atriz – Drama” por Tár e Angela Bassett chegou novamente ao topo, sendo considerada a “Melhor Atriz Secundária” por Black Panther: Wakanda Forever.

O “Melhor Filme de Animação” foi, sem surpresa, para Guillermo Del Toro e o seu Pinóquio e na categoria de “Melhor Filme em Lingua não-inglesa” a grande surpresa: Argentina, 1985! Um filme argentino fascinante que merece o reconhecimento, mas que era considerado o menos favorito entre os cinco nomeados. Nas categorias técnicas – aqui bem menos do que nos Óscares – a “Melhor Banda-Sonora Original” foi para um dos favoritos, Babylon, enquanto a “Melhor Canção Original” foi para “Naatu Naatu” de RRR na que será a outra grande surpresa nos prémios de cinema derrotando consagradas artistas como Rihanna, Lady Gaga ou Taylor Swift.

Televisão

The Abbot Elementary é a série que destaca com 3 vitórias. Além da vitória na categoria de “Melhor Série – Comédia/Musical”, a produção levou ainda para casa dois prémios de atuação. House of the Dragon levou para casa uma inesperada vitória em “Melhor Série – Drama” logo na sua primeira temporada, enquanto The White Lotus brilhou no campos das séries limitadas com a vitória principal na categoria, além da vitória na categoria de atriz secundária de Jennifer Collidge – a mãe do Stifler! Outros dos favoritos do público, como Zendaya em Euphoria, Julia Garner em Ozark e Evan Peters em Dahmer levaram para casa prémios que ajudarão ainda mais a impulsionar as suas já fortes carreiras.

Os momentos da noite – Discursos

Além dos prémios, muito do que aqui se passa relaciona-se com o que se diz. Jerrod Carmichael foi um apresentador que não terá agradado a todos com um estilo muito incisivio que nunca deixou de relembrar as grandes polémicas que envolveram os Globos nos últimos anos. Desde diretas menções à falta de representividade e ao racismo, passando por diretas e indiretas a personalidades como Tom Cruise e a sua cientologia, muito do que aqui foi dito não terá caído bem em certos setores. De qualquer forma, foi uma apresentação diferente, nem sempre comfortável, mas, provavelmente, necessária num ano em que a Organização precisava mesmo de se desculpabilizar pelos seu erros.

Entre os grandes discursos da noite destaque logo para o primeiro, de Ke Huy Quan, que emocionado relembrou os tempos mais difíceis quando até já tinha desistido dos seus sonhos em Hollywood. Similarmente, a sua parceira em EEAAO, Michelle Yeoh também falou das oportunidades que foram escasseando ao longo dos anos, não esperando mais chegar a este momento. Os vencedores de White Lotus – Jennifer Coolidge e Mike White – mostraram porque a série é hoje um sucesso, com divertidos discursos que entusiasmaram os presentes e Eddie Murphy fez um inesperadamente sério discurso de aceitação do seu prémio de carreira até…fazer a mais inesperada piada sobre Will Smith da noite. A cerimónia contou também com um discurso de Volodymyr Zelenskiy, presidente ucraniano, que apelou à paz no mundo e fim da atual guerra com a Rússia.

O que isto tudo significa para os Óscares?

Não muito, mas algo. É verdade que quem vota nos Globos de Ouro tem zero correlação com quem vota nos Óscares – jornalistas vs pessoas da indústria -, mas também é verdade que os Globos são uma enorme montra, a 2ª mais vista premiação do mundo do cinema e com uma sala recheada de grandes nomes que são votantes – e com peso – na indústria.

Banshees of Inisherin, The Fabelmans e Everything Everywhere All At Once parecem, ao dia de hoje, os maiores favoritos às categorias de Filme e Realização e nada terá mudado com esta cerimónia. Por outro lado, filmes como Top Gun: Maverick e Avatar: The Way of Water tiveram uma má noite, mas não se sabe se isso beliscará muito as suas chances nos Óscares, pois serão aí mais ancorados nas categorias técnicas.

Nas atuações, o duelo entre Michelle Yeoh (EEAAO) e Cate Blanchett (Tár) parece ser o cenário mais provável no feminino, enquanto no masculino a batalha será entre Austin Butler (Elvis), Colin Farrell (Banshees) e, possivelmente, Brandon Fraser (The Whale). Nas atuações secundárias, nada deverá parar Ke Huy Quan (EEAAO), enquanto nas atrizes tudo ainda parece muito confuso com 6/7 atrizes a aspirar à vitória. Angela Bassett (BP: Wakanda Forever) deu ontem um importante passo, mas é cedo para dizer se será a favorita. Mais percursores dos Óscares chegarão nos próximos dias antes das nomeações para os mesmos serem anunciadas a 23 deste mês.

Todos os vencedores podem ser encontrados aqui:

https://www.hollywoodreporter.com/movies/movie-news/golden-globes-2023-winners-list-1235294541/

Previous ArticleNext Article

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *